
Uma nota alta de maturidade digital hospitalar pode dizer muito sobre o sistema e quase nada sobre quem trabalha com ele todos os dias.
No Brasil, uma meia dúzia de hospitais chegou ao estágio mais alto de uma escala internacional que avalia a integração de dados, o suporte à decisão clínica e o fim do papel na rotina assistencial, mas essa nota audita a tecnologia, não o profissional que abre o prontuário eletrônico a cada atendimento.
Este artigo propõe um recorte diferente sobre maturidade digital em saúde: como medir, separadamente da nota do sistema, se a equipe clínica e técnica realmente domina o que a certificação supõe que ela domina.
Este artigo mostra por que certificações de maturidade digital hospitalar, como o EMRAM da HIMSS, avaliam a tecnologia adotada por uma instituição de saúde, não a competência de quem opera essa tecnologia no dia a dia.
Ele detalha por que essa distância importa à medida que redes de saúde crescem, abrem novas unidades e passam a depender de parceiros homologados para implementar e sustentar seus sistemas.
E explica por que registrar e comprovar o domínio técnico das equipes, de forma independente da nota do sistema, se torna ainda mais urgente com a chegada de módulos de inteligência artificial dentro do prontuário eletrônico.
O EMRAM, sigla em inglês para Electronic Medical Record Adoption Model, é o modelo de maturidade digital hospitalar mais usado no mundo para medir o avanço de uma instituição rumo ao prontuário eletrônico completo. Criado pela HIMSS (Healthcare Information and Management Systems Society) em 2005, ele organiza a digitalização em oito estágios, de 0 a 7, cruzando critérios como prescrição eletrônica, checagem eletrônica de medicação à beira leito, integração de dados entre departamentos e disponibilidade de suporte à decisão clínica. Chegar ao estágio 7, o mais alto da escala, significa operar sem papel, com dados clínicos totalmente integrados entre os setores do hospital.
Segundo os critérios oficiais publicados pela HIMSS, o modelo avalia sistemas, integrações e fluxos de dados clínicos, não o desempenho individual de quem usa o prontuário todos os dias. É um raio-x da infraestrutura de um hospital, não da rotina de trabalho de um enfermeiro, de um farmacêutico hospitalar ou de um analista de suporte técnico.
No Brasil, a escassez de instituições no topo dessa escala reforça o tamanho do desafio: até 2022, apenas seis hospitais brasileiros tinham a certificação de estágio 7, segundo a Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados). No mundo, o mesmo levantamento aponta pouco mais de 300 hospitais nesse patamar, a maioria concentrada nos Estados Unidos.
Alcançar essa nota prova que a tecnologia está pronta. Não prova, sozinha, que a equipe está.
Os critérios do EMRAM giram em torno de funcionalidades presentes no sistema: existe prescrição eletrônica? Existe checagem de medicação à beira leito? Os dados clínicos circulam entre os setores sem depender de papel? Nenhum desses critérios pergunta, de forma padronizada, se cada enfermeiro, cada farmacêutico hospitalar ou cada técnico de suporte sabe operar essas funcionalidades no nível que a nota sugere.
Uma revisão de escopo publicada em 2025 sobre competências digitais de profissionais de saúde constatou que, de forma recorrente entre os estudos analisados, esses profissionais ainda dominam pouco as ferramentas digitais que já usam na rotina clínica, mesmo em serviços que adotaram prontuário eletrônico havia anos. A tecnologia avança; o domínio de quem a opera nem sempre avança no mesmo ritmo.
O EMRAM já foi aplicado em milhares de hospitais em diferentes continentes, da Europa ao Oriente Médio, passando pela América Latina. Essa adoção internacional prova que o modelo funciona como régua comparável entre países. O que ela não resolve é o outro lado da equação: quando uma rede de saúde abre uma nova unidade em um país com idioma, legislação sanitária e cultura organizacional diferentes, a nota de maturidade tecnológica do sistema não diz nada sobre quanto tempo a nova equipe vai levar para operá-lo com a mesma segurança de uma unidade mais antiga.
Uma unidade recém-aberta pode herdar, da noite para o dia, um sistema em estágio 6 ou 7, sem herdar junto o mesmo nível de proficiência da equipe que vai operá-lo.

Boa parte da operação de um sistema hospitalar complexo não acontece só dentro dos muros do hospital. Fornecedores de tecnologia em saúde costumam manter redes de parceiros homologados, empresas terceiras que implementam, configuram e dão suporte a essas soluções em nome do cliente final. Se o preparo desses parceiros não é medido e comprovado da mesma forma que o preparo das equipes internas, a nota de maturidade do hospital contratante pode conviver, sem que ninguém perceba, com uma implementação mal configurada por um terceiro despreparado.
A nota de maturidade tecnológica é do hospital. A responsabilidade por quem opera e configura o sistema, muitas vezes, é compartilhada com uma cadeia de parceiros que a certificação nunca chega a auditar.
Uma auditoria de segurança da informação, uma reacreditação hospitalar ou uma due diligence de investidor não perguntam apenas se o hospital tem tecnologia madura. Perguntam se existe evidência documentada de que cada profissional concluiu o que precisava concluir, e quando. A certificação do sistema já é, por si só, difícil de alcançar. Mas ela não gera, automaticamente, um registro individual e auditável de quem sabe operar o quê.
A diferença entre “a equipe sabe operar o sistema” e “existe um registro verificável de que a equipe sabe operar o sistema” é exatamente o tipo de lacuna que uma auditoria mais rigorosa costuma encontrar primeiro.
Nem tudo isso é estático: a validação nos estágios mais altos do EMRAM costuma ser revisada periodicamente, o que reabre a mesma pergunta a cada ciclo. Sem um registro equivalente para a equipe, o hospital revalida a tecnologia e deixa de revalidar, com o mesmo rigor, quem trabalha com ela.
Sistemas de prontuário eletrônico já incorporam módulos de inteligência artificial generativa para apoiar decisão clínica, documentação automática e triagem de exames. Nenhum modelo de maturidade digital amplamente adotado hoje mede, de forma padronizada, se a equipe clínica sabe validar, questionar ou corrigir uma sugestão gerada por esses módulos, e não apenas aceitá-la.
Quanto mais a tecnologia decide, mais importa saber se quem está do outro lado da tela sabe quando discordar dela.
Nenhum dos pontos acima exige recomeçar do zero uma certificação que já é difícil de alcançar. Exige tratar a competência de quem opera o sistema com o mesmo rigor documental hoje reservado à tecnologia.
Isso não é burocracia extra sobre uma certificação que já exige anos de trabalho. É a peça que garante que a nota da tecnologia e o preparo de quem a opera avancem juntos, não em paralelo.
A nota de maturidade digital hoje aparece em release de imprensa, material comercial e ranking setorial, como uma vitrine natural para qualquer hospital que investiu pesado em tecnologia. Mas a mesma nota, olhada com mais rigor por reguladores, seguradoras e parceiros clínicos, também funciona como sinal de segurança do paciente. Nesse cenário, tratar o preparo da equipe como algo separado e não comprovado da nota do sistema deixa de ser um detalhe operacional e passa a ser exatamente o tipo de risco que uma auditoria mais cuidadosa é capaz de encontrar.
O caminho mais seguro é tratar a evidência do preparo da equipe com o mesmo rigor documental hoje dado à evidência técnica do sistema. Não como anexo da certificação, mas como parte dela.
Para ver como esse tipo de comprovação pode ganhar forma em uma operação de saúde presente em mais de uma dezena de países, vale conhecer o case do Grupo MV e como ele exemplifica o uso da plataforma da Happmobi para emitir registros automáticos e rastreáveis de conclusão, levar a mesma trilha técnica a equipes que falam idiomas diferentes e manter esse conhecimento dentro de um ambiente com controles de segurança da informação compatíveis com dados sensíveis de saúde.